Cláudio Guimarães dos Santos
Não é preciso ser nenhuma estrela da psicoterapia ou da filosofia para saber que, atualmente, é cada vez maior o contingente de pessoas que se queixam de solidão. Nos “barzinhos da vida”, por exemplo, esse é o grande tema - e muitas vezes o único - que é sempre discutido apaixonadamente.
E, ao contrário do que pensam alguns machões mais radicais, a solidão é o assunto preferido não apenas das mulheres, mas também dos homens, quando lá pelo quarto ou quinto copo de cerveja o papo começa a ficar mais sério, após terem sido esgotadas as últimas piadas e as discussões sobre futebol.
De um ponto de vista psicológico, é interessante notar que, apesar de estarem reunidas em volta de uma mesa, muitas pessoas não se cansam de reclamar por não terem ninguém para partilhar, de modo sincero, os seus desejos, medos, decepções, prazeres, angústias, carências, enfim, a sua vida. Ou seja, estão todos ali “juntinhos”, mas absolutamente solitários...
Trata-se, não há dúvida, de um dos grandes fenômenos sociológicos do mundo contemporâneo, que eu costumo chamar de “solidão coletiva”. Por que será que ele ocorre e o que fazer para revertê-lo (se é que, de fato, há algo a ser feito)?
O assunto é controverso, complexo, espinhoso e, por isso mesmo, não terei a pretensão de esgotá-lo em algumas poucas linhas. Ousarei, contudo, arriscar ao menos uma hipótese, que considero interessante e até consistente.
Há quem ache, por exemplo, que os homens e as mulheres da nossa época têm tanta dificuldade para constituir vínculos estáveis – sejam hétero ou homossexuais - porque estão por demais voltados para dentro de si mesmos, aprisionados no abismo egocêntrico das suas interioridades.
Não concordo com essa idéia. Creio, antes, que é precisamente por se encontrarem completamente voltados para fora, com as suas mentes subjugadas pela propaganda e pela mídia, que muitos, hoje em dia, não conseguem suportar a convivência com um companheiro ou companheira, e é por isso que estão sozinhos.
Uma tal vinculação excessiva ao mundo acelera o processo de diluição da interioridade do indivíduo – que já não era tão sólida -, com a conseqüente corrosão da sua capacidade de autodeterminação. Em outras palavras, tais vínculos externos, antes opcionais, passam, agora, a ser obrigatórios, tornando-se os únicos “fundamentos” a dar um pouco de sentido à sua vida, ainda que seja um sentido estereotipado e impessoal.
Assim, num aparente paradoxo, quanto mais “entchurmadas” se acham as pessoas, mais solitárias e isoladas elas se sentem, mergulhadas nos seus respectivos sofrimentos: todo mundo fica com todo mundo, mas ninguém permanece com ninguém.
É como se o excesso de circuitos e de oportunidades de contato disponíveis, multiplicando as opções de interação entre as pessoas, impedisse, por isso mesmo, o desenvolvimento, em cada um delas, de uma interioridade madura e conseqüente, sem a qual nenhum contato genuíno (e satisfatório) com o outro é possível.
Além disso, num mundo cuja tônica é a satisfação imediata dos desejos mais banais, do deleite dos sentidos mais grosseiros, num mundo no qual tantos envelhecem sem jamais se terem tornado adultos, quem seria capaz de se interessar pelo desenvolvimento de uma interioridade madura? Afinal, por que queimar os miolos com essas difíceis abstrações se a vida, para uma boa parte da humanidade, consiste – como, aliás, sempre consistiu... – em comer, dormir e copular, não necessariamente nessa ordem?
Na nossa época, os desejos consumistas das pessoas foram de tal modo exacerbados que elas não mais conseguem ficar satisfeitas, pouco importando o que lhes caia nas mãos, seja um carro, um vestido, um prêmio de loteria, ou até mesmo um companheiro ou companheira. Tão logo o “objeto” desejado é obtido, elas se lançam, desesperadas, atrás de um novo “troféu”, transformando as suas vidas na perseguição insensata de um estado de saciedade prazerosa – de uma espécie de “nirvana às avessas” - que jamais será atingido.
Esgotam-se, assim, dessa maneira tola, os esportistas, em busca de mais medalhas; os homens de negócios, atrás de mais dinheiro; os artistas, querendo mais sucesso; os políticos, almejando mais poder; e, todos eles, indistintamente, perseguindo essa coisa abstrata, que não conseguem muito bem definir, à qual dão o nome - na falta de outro melhor - de “felicidade”.
Esse fenômeno se torna ainda mais curioso quando nos damos conta de que fatos como a inevitabilidade da morte ou a impossibilidade da satisfação absoluta dos desejos são conhecidos de todos – desde a infância – e isso qualquer que seja a visão filosófico-religiosa considerada.
Não existe, infelizmente, solução simples e fácil para um tal estado de coisas. Ao contrário do que apregoam os fanáticos por remédios e “bolinhas”, nenhuma pílula será capaz de fomentar o desenvolvimento de uma personalidade equilibrada, criativa, integral, capaz de se bastar a si mesma e, por isso, de interagir generosamente com as outras pessoas.
Resta o desafio do autoconhecimento - seja daquele buscado, de forma isolada, pelo próprio indivíduo; seja daquele obtido com o auxílio de um psicoterapeuta experiente. Trata-se, como alguns bem sabem, de um caminho lento, difícil e quase sempre doloroso, mas quão recompensador...
Qualquer outra medida será, na minha opinião, apenas paliativa, contribuindo, com o passar do tempo, para aumentar ainda mais a legião dos que se sentam nos barzinhos, apinhados de gente, e ficam por ali se queixando de que sempre estão sozinhos. E, para algumas pessoas, não há melhor consolo do que passar a vida reclamando... da vida.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
domingo, 6 de setembro de 2009
Os óculos de Drummond
Cláudio Guimarães dos Santos
Volta e meia algum vândalo inconseqüente arranca os óculos da estátua de Drummond que fica em Copacabana, no calçadão do Posto 6, bem pertinho do velho Forte, no local onde o poeta gostava de se sentar.
O Poder Público repõe os óculos, mas eles são novamente arrancados algum tempo depois.
Desconheço se outras estátuas de poetas - como a de Fernando Pessoa, em Lisboa, bem em frente ao Café onde ele costumava rabiscar os seus poemas, ou a do nosso querido Vinícius, erigida em Itapoã, lá na bela Salvador - costumam sofrer semelhantes desditas.
Também ignoro se Drummond realmente gostava dos seus óculos; se eles eram, para ele, uma “segunda natureza”, a tal ponto que insistisse em tê-los na cara até mesmo quando chorava, deixando que as suas lágrimas lavassem córneas e lentes; ou se, teimoso, ele os tirava o tempo todo, como faz um garotinho – e um grande poeta não deixa jamais de sê-lo - revoltado com a “gente grande” que o obriga a utilizá-los. (Se essa última possibilidade for de fato a verdadeira, o tal sumiço dos óculos passa a ser, ao invés de uma agressão, um tributo pungente à memória de Drummond... Mas, não nos antecipemos...)
O que sei é que esses vândalos não têm, o mais das vezes, nenhuma idéia da real identidade da pessoa cuja estátua depredam com tanta obstinação (e, talvez, com algum prazer...). Se soubessem da verdade, talvez se comportassem de modo bem diferente, pois os poetas – especialmente os muito bons - são capazes de seduzir até as feras, como nos lembra o belo mito de Orfeu.
O mais plausível, no entanto, é que esses vândalos imaginem que se trate da estátua de um político ou, pelo menos, de alguém suficientemente rico e poderoso para estar justamente ali, naquela localização tão nobre, em que os cheiros “plebeus” de Copacabana já se mesclam aos aristocráticos perfumes de Ipanema - o baluarte par excellence da noblesse de souche carioca (a qual relegou, diga-se de passagem, para a Barra e para o Recreio, a legião dos emergentes deslumbrados).
É natural, portanto, que o contraste - que é extremo nesse trecho da orla - entre a miséria das favelas penduradas nos morros e a opulência dos edifícios de frente para o mar, venha a estimular todo o tipo de revolta e que esta acabe sendo dirigida, entre outros alvos, para a inocente estátua de Drummond. Afinal, por que razão os “intocáveis” da sociedade fluminense deixariam em paz, num lugar tão conspícuo, a estátua de um velho “quatro-olho” e careca, que acreditam ter sido um ricaço, enquanto eles mesmos são caçados, como bichos, por esquadrões da morte e “tropas de elite”? Certamente é assim que se manifesta, ainda que com vocabulário e sintaxe diferentes, o rancor dos “descamisados” da “montanha” pelos bacanas da “planície”, para fazermos um pendant latino-americano à oposição existente entre duas conhecidas facções políticas ao tempo de Revolução Francesa.
Todavia, em vez de prosseguirmos nessa trilha, por sinal já bastante percorrida, talvez fosse importante que refletíssemos um pouco. Será de fato realista atribuir toda a culpa por esses atos de vandalismo à multidão de “capitães de areia” que “infestam” as praias da Zona Sul, a essa “escória”, enfim, das “classes baixas” - uma expressão que tão bem ilustra o preconceito que permeia a visão de mundo das (autodenominadas) “classes altas”? Pois pode ser muito bem que estejamos enganados e que, ao contrário do que alguns preferem crer, os tais vândalos provenham das melhores famílias, da fina-flor da jeunesse dorée (et pourrie...) do Rio de Janeiro, da elite que estuda em colégios e faculdades caríssimas e da qual la crème de la crème são os pittboys turbinados que praticam as suas artes marciais em academias que custam os “óculos da cara”, que se drogam a mais não poder e que circulam com seus carrões importados (sem respeitar, evidentemente, as regras de trânsito) tendo ao lado patricinhas intragáveis e starlets da TV...
Evidentemente, se não quisermos ser tendenciosos, nem para a “esquerda” e nem para a “direita”, precisaremos admitir que os óculos de Drummond podem ter sido arrancados por delinqüentes de qualquer desses dois grupos: os que têm grana e os que não têm...
Existe, contudo, uma terceira hipótese, talvez a mais interessante entre todas as que avancei até agora, ainda que pouquíssimo provável. E se o sumiço periódico dos óculos forem a obra premeditada de uma única pessoa: ninguém menos do que o filho de D. Lili e do Sr. J. Pinto Fernandes – “o que não tinha entrado na história” –, os dois inesquecíveis personagens do poema “Quadrilha”?
Desenvolvamos um pouco essa idéia supondo que, além de interessante, esse poema de Drummond se refere, de fato, a pessoas reais.
Imaginemos, primeiramente, que o tal indivíduo – o J. Pinto Fernandes Filho, ou Pinto Filho, para ficar mais fácil – se tivesse tornado um inimigo figadal de Drummond. Ele jamais perdoara o poeta pelo desprezo com que este tratara o seu finado pai naquele fatídico último verso. Ainda mais o seu pai, um ilustre burocrata, que também escrevera centenas de poemas e que, por pouco, não fora eleito, com a ajuda de políticos poderosos – todos também “poetas”... –, para a Academia Brasileira de Letras. (Fora vencido, infelizmente, por outra nulidade literária, que possuía, todavia, um cartucho político maior.) Assim, apesar da admiração irrestrita do filho e da dedicação desmedida de D. Lili, o Sr. J. Pinto Fernandes não lograra superar a mágoa que lhe causara Drummond, tendo enfim falecido depois de longos anos de etilismo crônico, já que “bebia para esquecer” a desfeita do poeta. Desde esse dia, o jovem Pinto Filho jurara não descansar enquanto não vingasse a memória do seu pobre pai. Covarde por natureza, não fora, porém, capaz de tomar qualquer atitude contra o odiado poeta enquanto este esteve vivo. Mas aquela estátua no calçadão, tão isolada na madrugada, constituía um alvo fácil, até mesmo para ele.
Poderíamos, é claro, continuar essa tocante narrativa, mas vou interrompê-la (abruptamente) para arriscar uma quarta e última hipótese, de todas a menos plausível.
E se o nosso Pinto Filho, ao invés de um inimigo, fosse, antes, um devoto de Carlos Drummond de Andrade? E se ele fosse imensamente agradecido pelo fato de o poeta ter dado ao seu amado pai a única alegria verdadeira que este teve em toda a sua vida de burocrata medíocre: a de saber-se imortalizado no poema “Quadrilha”, a de ter entrado para a História - com a letra H maiúscula - sem precisar ter feito nada de importante, mas, simplesmente, por que “não tinha entrado na história”?...
Imaginemos, então, que esse nobre Pinto Filho, com o seu gesto de sumir com os óculos, estivesse, na verdade, querendo poupar o poeta desse monte de coisas horríveis de que todos somos testemunhas - nós que ainda enxergamos (uns com óculos, outros sem) - e que acontecem não somente no Rio de Janeiro, mas no Brasil inteirinho, tais como o lento assassinato das crianças que sucumbem sem escola, sem dignidade e sem perspectiva; ou a indecência da jogatina política e da falsidade ideológica dos partidos; ou a falta de caráter dos nossos “grandes líderes”; ou a desesperança imensa que nos causa a impunidade dos ricos; ou a destruição irremediável dos nossos ecossistemas mais preciosos; ou o “turismo selvagem” que transforma os nossos balneários em prostíbulos a céu aberto, onde estrangeiros, com euros e dólares, leiloam as vidas dos nossos cidadãos e cidadãs adolescentes; etc., etc. e tal...
Deixo, ao leitor, a liberdade de escolher a melhor explicação para o sumiço repetido dos óculos de Drummond... Mas em troca eu lhe peço, de mãos postas, que jamais – jamais mesmo! - feche os seus olhos a tanta coisa vergonhosa, como muitos, infelizmente, fazem hoje, no Brasil.
Volta e meia algum vândalo inconseqüente arranca os óculos da estátua de Drummond que fica em Copacabana, no calçadão do Posto 6, bem pertinho do velho Forte, no local onde o poeta gostava de se sentar.
O Poder Público repõe os óculos, mas eles são novamente arrancados algum tempo depois.
Desconheço se outras estátuas de poetas - como a de Fernando Pessoa, em Lisboa, bem em frente ao Café onde ele costumava rabiscar os seus poemas, ou a do nosso querido Vinícius, erigida em Itapoã, lá na bela Salvador - costumam sofrer semelhantes desditas.
Também ignoro se Drummond realmente gostava dos seus óculos; se eles eram, para ele, uma “segunda natureza”, a tal ponto que insistisse em tê-los na cara até mesmo quando chorava, deixando que as suas lágrimas lavassem córneas e lentes; ou se, teimoso, ele os tirava o tempo todo, como faz um garotinho – e um grande poeta não deixa jamais de sê-lo - revoltado com a “gente grande” que o obriga a utilizá-los. (Se essa última possibilidade for de fato a verdadeira, o tal sumiço dos óculos passa a ser, ao invés de uma agressão, um tributo pungente à memória de Drummond... Mas, não nos antecipemos...)
O que sei é que esses vândalos não têm, o mais das vezes, nenhuma idéia da real identidade da pessoa cuja estátua depredam com tanta obstinação (e, talvez, com algum prazer...). Se soubessem da verdade, talvez se comportassem de modo bem diferente, pois os poetas – especialmente os muito bons - são capazes de seduzir até as feras, como nos lembra o belo mito de Orfeu.
O mais plausível, no entanto, é que esses vândalos imaginem que se trate da estátua de um político ou, pelo menos, de alguém suficientemente rico e poderoso para estar justamente ali, naquela localização tão nobre, em que os cheiros “plebeus” de Copacabana já se mesclam aos aristocráticos perfumes de Ipanema - o baluarte par excellence da noblesse de souche carioca (a qual relegou, diga-se de passagem, para a Barra e para o Recreio, a legião dos emergentes deslumbrados).
É natural, portanto, que o contraste - que é extremo nesse trecho da orla - entre a miséria das favelas penduradas nos morros e a opulência dos edifícios de frente para o mar, venha a estimular todo o tipo de revolta e que esta acabe sendo dirigida, entre outros alvos, para a inocente estátua de Drummond. Afinal, por que razão os “intocáveis” da sociedade fluminense deixariam em paz, num lugar tão conspícuo, a estátua de um velho “quatro-olho” e careca, que acreditam ter sido um ricaço, enquanto eles mesmos são caçados, como bichos, por esquadrões da morte e “tropas de elite”? Certamente é assim que se manifesta, ainda que com vocabulário e sintaxe diferentes, o rancor dos “descamisados” da “montanha” pelos bacanas da “planície”, para fazermos um pendant latino-americano à oposição existente entre duas conhecidas facções políticas ao tempo de Revolução Francesa.
Todavia, em vez de prosseguirmos nessa trilha, por sinal já bastante percorrida, talvez fosse importante que refletíssemos um pouco. Será de fato realista atribuir toda a culpa por esses atos de vandalismo à multidão de “capitães de areia” que “infestam” as praias da Zona Sul, a essa “escória”, enfim, das “classes baixas” - uma expressão que tão bem ilustra o preconceito que permeia a visão de mundo das (autodenominadas) “classes altas”? Pois pode ser muito bem que estejamos enganados e que, ao contrário do que alguns preferem crer, os tais vândalos provenham das melhores famílias, da fina-flor da jeunesse dorée (et pourrie...) do Rio de Janeiro, da elite que estuda em colégios e faculdades caríssimas e da qual la crème de la crème são os pittboys turbinados que praticam as suas artes marciais em academias que custam os “óculos da cara”, que se drogam a mais não poder e que circulam com seus carrões importados (sem respeitar, evidentemente, as regras de trânsito) tendo ao lado patricinhas intragáveis e starlets da TV...
Evidentemente, se não quisermos ser tendenciosos, nem para a “esquerda” e nem para a “direita”, precisaremos admitir que os óculos de Drummond podem ter sido arrancados por delinqüentes de qualquer desses dois grupos: os que têm grana e os que não têm...
Existe, contudo, uma terceira hipótese, talvez a mais interessante entre todas as que avancei até agora, ainda que pouquíssimo provável. E se o sumiço periódico dos óculos forem a obra premeditada de uma única pessoa: ninguém menos do que o filho de D. Lili e do Sr. J. Pinto Fernandes – “o que não tinha entrado na história” –, os dois inesquecíveis personagens do poema “Quadrilha”?
Desenvolvamos um pouco essa idéia supondo que, além de interessante, esse poema de Drummond se refere, de fato, a pessoas reais.
Imaginemos, primeiramente, que o tal indivíduo – o J. Pinto Fernandes Filho, ou Pinto Filho, para ficar mais fácil – se tivesse tornado um inimigo figadal de Drummond. Ele jamais perdoara o poeta pelo desprezo com que este tratara o seu finado pai naquele fatídico último verso. Ainda mais o seu pai, um ilustre burocrata, que também escrevera centenas de poemas e que, por pouco, não fora eleito, com a ajuda de políticos poderosos – todos também “poetas”... –, para a Academia Brasileira de Letras. (Fora vencido, infelizmente, por outra nulidade literária, que possuía, todavia, um cartucho político maior.) Assim, apesar da admiração irrestrita do filho e da dedicação desmedida de D. Lili, o Sr. J. Pinto Fernandes não lograra superar a mágoa que lhe causara Drummond, tendo enfim falecido depois de longos anos de etilismo crônico, já que “bebia para esquecer” a desfeita do poeta. Desde esse dia, o jovem Pinto Filho jurara não descansar enquanto não vingasse a memória do seu pobre pai. Covarde por natureza, não fora, porém, capaz de tomar qualquer atitude contra o odiado poeta enquanto este esteve vivo. Mas aquela estátua no calçadão, tão isolada na madrugada, constituía um alvo fácil, até mesmo para ele.
Poderíamos, é claro, continuar essa tocante narrativa, mas vou interrompê-la (abruptamente) para arriscar uma quarta e última hipótese, de todas a menos plausível.
E se o nosso Pinto Filho, ao invés de um inimigo, fosse, antes, um devoto de Carlos Drummond de Andrade? E se ele fosse imensamente agradecido pelo fato de o poeta ter dado ao seu amado pai a única alegria verdadeira que este teve em toda a sua vida de burocrata medíocre: a de saber-se imortalizado no poema “Quadrilha”, a de ter entrado para a História - com a letra H maiúscula - sem precisar ter feito nada de importante, mas, simplesmente, por que “não tinha entrado na história”?...
Imaginemos, então, que esse nobre Pinto Filho, com o seu gesto de sumir com os óculos, estivesse, na verdade, querendo poupar o poeta desse monte de coisas horríveis de que todos somos testemunhas - nós que ainda enxergamos (uns com óculos, outros sem) - e que acontecem não somente no Rio de Janeiro, mas no Brasil inteirinho, tais como o lento assassinato das crianças que sucumbem sem escola, sem dignidade e sem perspectiva; ou a indecência da jogatina política e da falsidade ideológica dos partidos; ou a falta de caráter dos nossos “grandes líderes”; ou a desesperança imensa que nos causa a impunidade dos ricos; ou a destruição irremediável dos nossos ecossistemas mais preciosos; ou o “turismo selvagem” que transforma os nossos balneários em prostíbulos a céu aberto, onde estrangeiros, com euros e dólares, leiloam as vidas dos nossos cidadãos e cidadãs adolescentes; etc., etc. e tal...
Deixo, ao leitor, a liberdade de escolher a melhor explicação para o sumiço repetido dos óculos de Drummond... Mas em troca eu lhe peço, de mãos postas, que jamais – jamais mesmo! - feche os seus olhos a tanta coisa vergonhosa, como muitos, infelizmente, fazem hoje, no Brasil.
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